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Rio Atibaia - Vida e Morte

Esta tarde, sentado às margens do lindo e antes piscoso Rio Atibaia, lá pelas bandas da Usina, pequena vara de bambu nas mãos, aguardava a chegada de algum lambari descuidado.


Rio Atibaia - 1947

Na mansidão de fresca tarde de primavera, sentindo toda a pureza que a natureza bondosamente oferecia, deixei meu pensamento fluir livre, sem receios ou grilhões, embalado pelo canto nostálgico das juritis, dos alegres bem-te-vis, dos sabiás e dos canários.

Lembrava-me, comovido, de uma ode que há algum tempo havia escrito, inspirado pelo encanto dessas matas e pela beleza desse Rio, antes maravilhoso, que deu nome à nossa querida cidade de Atibaia:

ODE AO RIO ATIBAIA

Aos primeiros indícios de chuva, a vida renasceu hoje nos campos.
Os pássaros, em agradecimento, entoam cânticos de louvor ao Criador, buscando incansavelmente suas companheiras, para a geração de novas vidas.
Até os peixes do rio que circunda meu refúgio promovem evoluções, ondulando as águas que até ontem pareciam frias, insensíveis e mortas.
Lindas flores silvestres salpicam os campos, revelando e querendo demonstrar contentamento pela bênção divina que, aos poucos, vem trazer-lhes o necessário para o esplendor do florescer primaveril.

Os jardins cobertos por dálias e crisandálias, marias-sem-vergonha, onze-horas, rosas, os cravos esquecidos, brancos, vermelhos e amarelos, bocas-de-leão, amores-perfeitos, hortênsias e margaridas, parecem sorrir e, arquejando de um lado para outro, ao sabor de benfazeja brisa, parecem curvar-se em agradecimento.
Há novamente no ar, substituindo a aridez e a poluição das queimadas, o perfume agradável dos inúmeros jasmins e damas-da-noite, que nos deixam inebriados de prazer.
A sinfonia diurna das cigarras e noturna de grilos e sapos, encerra o dia de agradecimento da mãe Natureza que, certamente, ao contrário dos homens, jamais esquece, retribuindo, com sobras, o ofertório Divino.

Assim pensando e esperando os lambaris que não chegavam, comecei a imaginar o quanto aprenderíamos, se o sacrificado e abandonado Rio Atibaia pudesse se expressar, contando o que já tinha vivenciado.

Com certeza, ficaríamos conhecendo melhor aqueles que, pela primeira vez, chegando por estas bandas, "ajoelharam-se a teus pés", saciando a sede.

O que poderias tu, ó Rio Atibaia, dizer-nos a respeito de Padre Mateus Nunes e Jerônimo de Camargo os quais tão bem conheceste, servindo de guia e outras vezes os acolheste em barcos quando a rincões mais distantes se dirigiam?

Quantas vezes em ti se banharam os desbravadores que na pequena Vila de Atibaia aportavam, cansados e famintos, vindos de outras terras!

Assististe a tudo tão próximo, e, participando do nascer daquela pequena e singela vila, foste o motivo maior que ensejou a fixação daqueles pioneiros desbravadores por estas paragens.

Cedeste-lhes, graciosamente, tudo de ti.

Sorveram da abundante água de tua nascente; alimentaste as roças de milho, mandioca e hortaliças cultivadas pelos primeiros moradores, nas terras férteis que a ti margeiam.

De comer, serviste-lhes os mais belos e deliciosos espécimes: de pequenos lambaris a grandes dourados, que em ti viviam e procriavam, além de outros animais que, desfrutando de tua benfazeja hospitalidade, viviam às tuas margens, dominando as várzeas e os chapadões.

Pacas, cotias, capivaras, jacus, catetos e marrecos são espécies hoje em extinção, mas eram os alimentos principais de muitos ribeirinhos atibaianos.

Serviste de guia aos desbravadores e aventureiros que, embrenhando-se nas matas, à procura de riquezas ou de novas descobertas, de ti se valiam para nortear-lhes o caminho.

Observaste de bem perto todas as transformações que a vila sofreu; as violentas brigas ocorridas entre as famílias Pires e Camargo, bem como o surgimento e o nascimento de homens valiosos e destemidos, que se uniram em busca do fortalecimento da pequena cidade que começava a engatinhar.

Testemunhaste a celebração da primeira missa, sob cruz tosca, rezada em solo atibaiano, pelo padre Matheus Nunes de Siqueira, em 1665.

E lá, não só a ela assististe, como também, e principalmente, tuas águas, depois de bentas, levaram conforto e esperança, a inúmeros fiéis.

Presenciaste, embevecido e entusiasmado, a primeira grande reforma da capela construída pelo genro de Jerônimo de Camargo, Antônio Prado da Cunha, dela participando, ao servir a água necessária para o preparo da argamassa.

Comemoraste, com igual entusiasmo, todas as conquistas e benefícios que, aos poucos, vinham sendo carreados para Atibaia, no século dezoito, desde a elevação de capela curada a paróquia e aldeia, como a de freguesia a vila, ocasião em que surgiu o Distrito de São João Batista de Atibaia e se deu o início em 1763 da construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e, com ela, o nascimento de nossa tradicional Cavalhada.

Quão feliz estavas ao assistir às festas e passeatas realizadas no pequeno vilarejo, quando Lucas de Siqueira Franco foi nomeado, em oito de maio de 1775, primeiro capitão-mor de Atibaia.

Tristemente, em 1783, ao findar-se o século dezoito, viste a despedida de Lucas de Siqueira Franco, para a eternidade.

Ao iniciar-se o século 19, viste a pequena cidade e todo o seu povo participar das festas comemorativas da Independência e Aclamação do Primeiro Imperador do Brasil, D. Pedro I, em 1822.

Feliz, testemunhaste o término da construção em 1836, do prédio da nova cadeia e câmara municipal, onde hoje está instalado o Museu Municipal João Batista Conti.

Acompanhaste emocionado, de 1858 a 1865, a grande reforma realizada na Igreja da Matriz, sob a batuta de José Lucas, quando saciaste a sede de milhares de escravos que, em fila de extensão maior que dois quilômetros, transportavam materiais para o preparo das reforçadas paredes de taipas, até hoje existentes e conservadas.

Conheceste em 1883 os primeiros nomes de ilustres atibaianos a serem homenageados com nomes de ruas da cidade e, em 1884, assististe à inauguração do ramal da Estrada de Ferro Bragantina que, instalado quase às tuas margens, trouxe o progresso para toda a região.

Viste em 1885 a construção do primeiro coreto da cidade, na praça da Matriz, que em 13 de maio de 1888, serviu de palco às inúmeras comemorações pela libertação dos escravos. Da mesma forma, presenciaste outras festividades realizadas nesse pequeno, mas bonito coreto redondo, como a de 1889 em que se comemorou a Proclamação da República.

Quão feliz estavas, ó então límpido Rio Atibaia, quando viste nascer em cinco de agosto de 1890, o primeiro jornal de Atibaia, O Itapetinga, por iniciativa de Afonso de Carvalho e Olympio da Paixão!

Acompanhaste, só tu sabes e poderias nos dizer com precisão, quais as grandes manobras políticas ocorridas nos dias que antecederam a 11 de novembro de 1895, quando, vencidas as objeções, foi inaugurado o sistema de água encanada.

Ao iniciar-se o século vinte, presenciaste o surgimento em dezessete de fevereiro de 1901 do jornal O Atibaiense e a instalação em vinte e quatro de novembro do primeiro telefone em Atibaia, ligando o centro da cidade ao Bairro de Caetetuba, por pioneirismo de José Antônio da Silveira Maia.

Quão emocionado e vaidoso estavas quando assististe às inaugurações da Sociedade Italiana de Mútuo Socorro¹, do Grupo Escolar José Alvim² e do sistema de energia elétrica³, de cujas obras participaram eméritos atibaianos, entre eles Aprígio de Toledo.

Como estavas emocionado ao assistir em 1911, à chegada do grande pintor Benedito Calixto, que viria a eternizar em suas telas não só a ti, mas, e principalmente, a cidade que o acolheu.

Assististe, com tristeza e pesar, à partida para a sua última viagem em 24 de junho de 1913, do tenente-coronel José Francisco de Campos Bueno, o "José Bim", que comandou a política em Atibaia por vários anos.

Testemunhaste de longe a quase destruição da Igreja do Rosário, quando, em 1914, sua única torre foi atingida por um raio.

Quanta alegria sentiste em oito de novembro de 1914, ao presenciar a inauguração da Santa Casa de Misericórdia, que viria aliviar a dor e o sofrimento de muitos que tu, ó Rio Atibaia de ainda águas puras, conhecias!

Ó piscoso Rio Atibaia que começaste a ficar preocupado em 1929, quando as garras do progresso começaram a destruir tuas entranhas, ao veres a construção e inauguração da Usina Elétrica, interrompendo-te e impedindo a procriação normal dos peixes que agasalhavas em teu seio, que no período da desova, procuravam as tuas nascentes para a multiplicação natural da vida.

Sem técnica adequada na época e em virtude do desinteresse político, vistes aí se iniciar a eliminação de inúmeras espécies em tuas límpidas águas.

Emocionado, observaste a fundação, em 1930, da Vila São Vicente de Paula, entidade beneficente e sem fins lucrativos, que inestimáveis serviços viria prestar à coletividade atibaiana!

Quanta alegria sentiste, ó ainda piscoso Rio Atibaia, quando presenciaste a alegria dos jovens e meninos, ao verem nascer os dois maiores clubes esportivos de Atibaia e que nas décadas seguintes levariam ao delírio os amantes e aficionados do futebol: São João Futebol Clube e Associação Atlética Cetebê.

Presenciaste, emocionado e triste, o falecimento do Major Juvenal Alvim6, Álvaro Correia Lima, José Pires Alvim e Geraldo Cunha Barros9, prestimosos e honrados cidadãos, que lideraram a política em Atibaia, na primeira metade do século vinte.

E hoje à beira da morte, choras copiosamente, vendo o progresso e o descaso destruir tuas nascentes, avançando por tuas margens e dilacerando tuas entranhas.

Poluído, abandonado e só, não sentindo mais a companhia das espécies que em teu seio tu alimentaste e deste vida, por não mais resistir às vorazes garras da ganância e do lucro fácil, que o poluem, se pudesses falar, certamente, em tom solene e forte, gritarias:

- Povo ingrato... Por que me abandonaste?


1 Fundada em 15 de Janeiro de 1906.
2 Inaugurado em 15 de março de 1906.
3 Inaugurado no ano de 1907.
4 Fundado em 1º de fevereiro de 1930.
5 Fundado em 24 de novembro de 1934.
6 Faleceu em 9 de fevereiro de 1936.
7 Faleceu em 1969.
8 Faleceu em 24 de dezembro de 1979.
9 Faleceu em 19 de outubro de 1976.

Artigo publicado no livro Pelas Ruas de Atibaia, 2002, de José de Anchieta Loriano, ed. Degáspari.

 

Colaboração de José de Anchieta

José de Anchieta Loriano foi um atibaiense ilustre, advogado, escritor, poeta, presidente do Centro Cultural dos Construtores da Sociedade Atibaiense - CECON - autor dos livros Pelas Ruas de Atibaia, Construtores da Sociedade Atibaiense e Becos, Lendas e Casos Pitorescos, editor do jornal O Balaio e colaborador assíduo do www.atibaia.com.br.

 

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