O número sete na religião Cristã é considerado o número da perfeição, o número Divino. Imagino então que o quatorze poderia expressar o dobro de perfeição ou divindade. É exatamente esta a impressão que se tem ao visitar a região dos Lagos Andinos, um território dividido entre o Chile e a Argentina e cortado pela Cordilheira dos Andes.

Cada um dos países tem um roteiro turístico chamado de Rota dos Sete lagos, promocionada em folhetos de turismo e sites de internet. Cada uma delas justifica uma visita, pois, são caminhos que encantam por sua beleza e exuberância, não só dos lagos, mas também das montanhas, rios e florestas. Conforme descobri em minha última viagem a região, é possível unir as duas rotas construindo assim um corredor de beleza cênica binacional que agora batizo de Rota dos 14 Lagos.
Sete lagos Argentinos - De Vila La Angostura a San Martin de Los Andes
Vila La Angostura é uma das belas cidades da região. Está localizada às margens do imenso Lago Nahuel Huapi, um dos maiores da Argentina e cercada por parques nacionais. Vila La Angostura tem este nome por causa de um ístimo que liga a cidade a península de Quetrihue. Suas casas tem uma arquitetura de montanha, todas feitas em madeira.

Na rua principal existem lojas para todos os gostos, destes pequenos Cafés até representantes de grandes marcas da moda e aventura. Perto dali, a estação de esqui de Cerro Bayo é um atrativo tanto durante o verão, quanto no inverno, servido ora para o esqui, ora como mirante para toda a região. No porto da cidade você encontrará várias excursões lacustres, inclusive ao bosque dos Arrayanes, uma floresta formada por árvores de madeira clara e manchada de branco.

O lago Nahuel Huapi pode ser considerado o primeiro da nossa lista de lagos. A partir dele seguimos pela rodovia 234 em direção a San Martin de los Andes. O caminho tem cerca de 110 quilômetros atravessando vales e montanhas numa sucessão de lindas paisagens. Parte da estrada ainda não foi asfaltada, mas está bem conservada. Durante o trajeto é possível avistar vários lagos, todos eles com mirantes na beira da estrada. Além do Nahuel Huapi avista-se os lagos Correntosos, Espejo, Traful, Villarino, Falkner e Meliquina. O ideal é fazer este caminho com várias paradas, aproveitando para tirar muitas fotos. No final da rota encontramos a cidade de San Martin de Los Andes, um ótimo lugar para passar uma ou duas noites.

San Martin é uma cidade encantadora, toda plana e cercada de altas montanhas. Uma delas é o cerro Chapelco onde existe uma excelente estação de esqui. Como Vila La Angostura, a maioria das casas e comercio são construídas em madeira. Em frente da cidade está o lago Lacar de cor azul forte e cercado de florestas sempre verdes. É aqui que começa a segunda parte da viagem.
Rota dos Sete lagos - Chile - De San Martin de los Andes a Valdivia
Esta segunda rota dos Lagos começa na Argentina e termina na costa chilena por uma boa razão. Explico: Normalmente a fronteira entre Chile e Argentina é determinada pelo divisor de águas, ou seja, os lagos e rios que descem em direção ao oceano Pacífico pertencem ao Chile enquanto os que correm para o Atlântico pertencem a Argentina. No caso do lago Lacar acontece uma exceção. Este lago é formado no lado Argentino, mas suas águas correm para Oeste através da Cordilheira dos Andes. Por isto o consideramos parte da rota dos Lagos Chilenos.

As águas do Lacar adentram as montanhas andinas e atravessam a cordilheira através da passagem de Hua Hum que tem apenas 650 de altura. Estas águas formam então o lago Pirehueico que por sua veza forma o rio Fuy e outros 5 lagos: Neltume, Calafquen, Pellaifa, Panguipulli e Riñihue. Finalmente, depois de tanto viajar, as águas formam o rio Calle Calle, que desce a planície costeira até o Pacífico, próximo a cidade de Valdívia.

Todo este caminho pode ser feito em excursões, ônibus regulares e especialmente de carro. Esta última opção permite parar em vários lugares para observar a paisagem e animais. A travessia do lago Pirehueico é feita por uma balsa e dura cerca de 90 minutos. Neste ponto da viagem já é possível observar alguns glaciares e o cume do gigantesco vulcão Mocho-Choshuenco com 2.415m de altura. Depois da travessia, o caminho segue o curso do rio Fuy através de bosques nativos de Lengas e Coyhues.

Uma parada importante é no salto de Huillo-huillo, uma queda dágua que impressiona pela sua força e beleza. Deste ponto é possível subir (em 4x4) a parte mais alta do vulcão Mocho-Choshuenco e de lá ter uma visão privilegiada dos vulcões Lanin (3.747 m), do Quetrupillan (2.009 mts) e do Villarica (2.840 mts), além de várias outras montanhas da cordilheira dos Andes.
A partir de Huillo-Huillo é possível seguir vários caminhos. Ao sul em direção a Puerto Varas e Puerto Montt. Ao norte com destino a Pucon e Villarica. E a oeste, seguindo o curso das águas em direção ao porto de Valdívia, onde termina nossa rota.

Esta região está aberta ao turismo durante todo o ano e a passagem através dos Andes raramente fecham durante o inverno. Em todas as cidades existem uma boa estrutura de hotéis e serviços. Para quem desejar fazer este roteiro de carro (como eu fiz) sugiro fugir da temporada de neve. O ideal é viajar entre Outubro e Abril.