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26/01/2012 10:40:42


Coluna do Colaborador: O dormente carro de boi

Por: Douglas Brizzante

Antigamente, como hoje, uma das primeiras exteriorizações do poderio da riqueza estava no meio de transporte. Rico, no final do século 19 e início do século 20, era o individuo que se fazia transportar em vitória (carruagem descoberta, de quatro rodas) ou trole (carruagem ligeira de um só plano, que trazia à frente um pequeno assento para o cocheiro e atrás um assento maior, onde cabiam apertadas três pessoas). Toda a fortuna particular estava assentada no cultivo do café (Coffea arábica - Arbusto de folhas opostas, membranáceas, elípticas; flores pequenas, brancas, perfumadas e dispostas em glomérulos; frutos vermelhos ou amarelos, drupáceos, contendo duas sementes, que, depois de secas, torradas e moídas, fornecem o pó para a bebida. Família das rubiáceas).

O café formava um exército que caminhava dois a dois contra o sertão. A imagem além de perfeita como poética, é verdadeira. Poética porque aquelas fileiras verdes de árvores descendo encostas, atapetando planícies, galgando montanhas, contornando cidades, espraiando-se por toda a imensidão do horizonte, lembrava a marcha de um exército avassalante. As matas que eram seu inimigo iam tombando e as árvores imensas, cernes de madeira de lei, iam juncando inaproveitadas os campos daquela batalha, como se fossem cadáveres que se consumissem com o tempo, tisnados pelo fogo da devastação. Verdadeira, pois o café era um nômade. Moloque faminto de terras virgens. O café veio do Estado do Rio de Janeiro, subiu o Vale do Paraíba, penetrou no rincão da paragem chamada de "Atubaia", caminho para as Minas Gerais, ganhou forças quando descobriu as terras roxas do Oeste. E tudo se fez no Estado de São Paulo e em Atibaia em torno do café.

A cultura do café em Atibaia já teve seu auge, chegando a abrigar cerca de quatorze milhões de pés, produzindo no início do século 20, oitenta mil arrobas (1.200.000 kg), para produzir cento e oitenta mil arrobas (2.700.000 kg) em 1910 e duzentos e vinte mil arrobas (3.300.000 kg) em 1920 (Davinir de Castro Peres, engenheiro agrônomo, formado pela Universidade de São Paulo, Escola de Agronomia Luiz de Queiroz, de Piracicaba - SP, em artigo publicado no "O Atibaiense" em 1956).

O rico coronel atibaiense possuía, além das vitórias, as mulas para o transporte de cargas de longo percurso e o de curto era feito por carro de boi, objeto hoje desconhecido e muito raro até em museus. Tratava-se de um estrado extremamente forte, de forma retangular, que terminava à frente em formato de lança, onde eram presos os bois pelo pescoço por meio de uma canga (peça de madeira encurvada, simples ou dupla, que se coloca no cachaço dos bois de carro). Este estrado, na sua parte inferior, dividindo-o em duas porções regulares, assentava sobre o eixo fixo às duas rodas e preso a ele por meio de cambotas (parte circular das rodas dos carros, onde se prendem os raios e sobre qual é fixado o aro). Toda esta estrutura era de madeira de lei, sendo que para o eixo se usava cabriúva ("Myrocarpus frondosus" - árvore que chega até quinze metros de altura, com casca cinza-pardacenta, flores brancas e fruto que é uma vagem alada. Fornece madeira de ótima qualidade, avermelhada, compacta, muito aromática, tanto que a serragem e a casca são usadas em perfumaria; a resina tem propriedades balsâmicas e expectorantes). Como as rodas eram fixas, as curvas fechadas se faziam por meio de arrasto, girando as rodas apenas quando o carro era puxado em linha reta. Girando os eixos sobre as cambotas, o calor do atrito provocava um guincho estridente ouvido a grande distância. Este "canto do carro de boi" era poético, nostálgico, dormente. E sob aquela música os bois marchavam solenes e compassadamente, envoltos numa nuvem de pó.

Guiar um carro de boi não era fácil. Exigia muito do carreiro (homem que conduz um carro de boi). Começava que, para que tudo andasse bem, era preciso que houvesse identidade entre o boi e seu guia. Para amansar o boi de carro era imprescindível que o amanssador tivesse boa índole. Um indivíduo de maus sentimentos nunca pode ser um bom carreiro. Depois, é necessário ter memória para não esquecer os nomes dos bois, sem o que, é impossível guiá-los, porque eles só obedecem quando nominalmente invocados. Assim, para se fazer com que dois bois de guia (os dois primeiros bois) virem à esquerda ou à direita, não é bastante mostrar-lhes isto; é necessário chamá-los pelo nome e indicar o que eles têm a fazer: "avante, Beleza", "afaste, Malhado". Assim se faz com que os dois bois de guia executem a manobra que desejamos. Toda a tração bovina se fazia por meio de objetos de madeira, tais como a canga e os canzis (cada um dos dois paus presos à canga entre os quais se mete os pescoço do boi). O bom carreiro sabe escolher no mato o galho de "açoita-cavalo" ou "amendoim", que cortado e trabalhado a facão se transforme numa peça de arreame. Tem que ser um pouco trançador de couro cru, para fazer uma chincha (tira de couro usada para prender a canga no pescoço do boi). E, acima de tudo tem que ser um homem paciente como o boi que ele dirige, para saber vencer distâncias naquele passo de marcha humana. E só quem já viu uma boiada atrelada se dessedentando nas águas claras de um ribeirão, sabe o que significa a tranquilidade.

À entrada da cidade a lei exigia que o carro de boi silenciasse o seu canto para não perturbar o sossego urbano. E isso se obtinha lambuzando-se o eixo entre as cambotas com uma mistura de sebo e de graxa. O carro de boi perdia sua majestade. O seu encanto desaparecia e ele se transformava, por entre as casas das ruas, num monstrengo ridículo. Nem os bois sabiam marchar sem o cantar harmonioso do carro.

As ruas eram de terra, as carroças faziam sulcos fundos com suas rodagens cobertas com aro de ferro. A Prefeitura não possuía arigó (pessoa que trabalha na construção e conservação de estradas e ruas) em número suficiente para manter as ruas bem aplainadas em tempo de chuva e em tempo de seca.

Em uma quinta-feira de março de 1901 ocorreu um acidente com um morador de Atibaia, a vitima foi o Sr. Raphael de Oliveira, quando este ao colocar um piano sobre um carro de boi foi apanhado de surpresa pelo pesado móvel, sofrendo fratura de uma costela e ferimentos no pé. O paciente foi tratado pelo Dr. Miguel Vairo (Renato Zanoni - Atibaia no Século XX, página 25).

Depois veio o progresso, isto é, veio o automóvel e com ele a conservação das estradas e das ruas. E o carro de boi, com suas rodas fixas, finas e chapeadas de ferro, era o inimigo natural das estradas, pois que onde passava deixava um sulco e onde manobrava cavava um buraco. Além disso, a sua morosidade o tornou anacrônico. E era com um amargo sorriso de tristeza que os velhos carreiros cediam lugar nas rodovias, aos velozes, barulhentos, grosseiros e poluidores caminhões.

Para aqueles que não conheceram o carro de boi basta olharem para o quadro "O Grito do Ipiranga", pintado em 1846, pelo artista Pedro Américo e poderão vislumbrar em seu lado esquerdo um carro de boi conduzido por um carreiro matuto, ou então, admirarem a foto de Aprígio de Toledo, datada de 06 de setembro 1903, retratando o meio de transporte em Atibaia, estampada à página 98, e também a foto de autoria desconhecida à página 30, do livro "História de Atibaia - Volume I", de João Batista Conti.

O carro de boi foi abolido no município de Atibaia pela Lei nº 227, de 01 de outubro de 1925 e proibido de circular nas estradas municipais.

Com a pobreza do carro de boi morria a poesia das estradas e nascia o cupidismo humano com a conquista rápida da fortuna, que começava com o vencer o tempo.

 

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Colaboração de Douglas Brizzante

Resido em Atibaia desde maio de 1957. Sou secretário do Partido Trabalhista Brasileiro. Já mantive entre 1983 a 1985 coluna no Jornal O Atibaiense.

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